| |
Para
eles, sempre foi o "Alto da Serra"
Para
minha família, sempre foi o Alto da Serra. Quando eu estive lá
pela primeira vez depois de alfabetizado, por volta de 1949, e
vi o Paranapiacaba escrito na estação, perguntei ao meu pai o
que era aquilo. Ele me contou que o nome oficial do lugar era
Paranapiacaba, mas que todos conheciam por Alto da Serra. Minha
avó Encarnação sempre se referia ao Alto.
O
seminarista que virou sitiante
Meu
bisavô, Jesus Rodrigues Varela, veio da Espanha com sua esposa
Filomena, em fins do século dezenove. Traziam já vários filhos,
incluindo duas mulheres, Encarnação e Carmen, de quem vamos ouvir
outras coisas mais adiante. Jesus vinha da perto de Vigo, na Galiza,
região do noroeste da Espanha, rica de tradições e pobre de terras.
Embora tivesse sido seminarista, portando dotado de uma instrução
razoável para a época, arranjou um pedaço de terra e dedicou-se
a plantar as coisas que a terra dava, para vender aos moradores
da Vila.
Durante
muito tempo, os filhos e filhas de Jesus e Filomena Rodriges,
com seus respectivos cônjuges, tiveram uma influência enorme em
Paranapiacaba. Quando eu aparecia por lá, sempre havia uma porção
de tios, primos e tios-avós a visitar e cumprimentar. Hoje, os
únicos parentes que tenho lá, estão no cemitério que fica no alto
do morro, junto da igreja de onde se vê a vila toda. Os outros,
foram se mudando, mas a maioria está em cidades próximas, geralmente
perto de uma estação. Porque, no coração, somos todos ferroviários.
As
filhas e filhos do seminarista que virou sitiante
Havia,
por exemplo, Sebastião Duarte, casado com minha Tia [melhor dizendo,
tia-avó] Maria, maquinista de primeira classe, famoso pela infelicidade
ter atropelado um burro e ter sido multado por isso em dez milréis.
Um acidente que não o impediu de ser o primeiro que conduziu uma
máquina a óleo na EFSJ. Havia Vicente Rodrigues, casado com outra
Maria, que lá pela década de 1920 era o chefe da máquina fixa,
cargo cuja importância só pode aquilatar quem conheceu o sistema
funicular e as enormes máquinas subterrâneas que o movimentavam.
Havia
João Soares, casado com Floripes Rodriges Soares, que pintava
viadutos na serra e, quando foi criado o cinema em Paranapiacaba,
molhava a tela, uma operação indispensável na época.
Havia
Joaquim Pereira, agrônomo responsável fazenda que a Estada tinha
em Belém, perto de Franco da Rocha, casado com Virgínia Rodrigues
Pereira.
Havia
também, minha tia Manuela -- casada com um Januário, o foguista,
que também era Rodrigues -- mulher famosa por ter sobrevivido
à picada de uma cobra. Passou anos em uma cadeira, o que não a
impediu de dominar sua família com mão de ferro. Havia minha tia
Purfica, casada com Manuel dos Santos, foguista, que teve duas
filhas, Orlanda (Landa, para os íntimos) e Dina. A Landa e a Dina
se casaram com dois sujeitos que são amigos até hoje e que viviam
caçando pacas na floresta que circundava e ainda circunda a vila
- isso, claro, quando não estavam trabalhando na Estrada.
Gente
interessante, cujas muitas histórias ainda um dia conto.
Os
Ameixeiro e os Nogueira
Mas
havia também Carmen e Encarnação, minhas avós. Para falar das
duas, tenho de voltar um pouco no tempo.
Próximo
à virada do século, veio José Ameixeiro, português do Pião, um
lugarejo perdido no Conselho de Ansião (escrito com "s"
mesmo), no Distrito de Leiria, onde, ao que conta minha mãe, o
que mais havia eram pedras. José casou-se com Isaura, brasileira
de modos aristocráticos, e era um próspero negociante no Alto
da Serra. Morreu quando era ainda muito jovem. Mas já tinha vindo
seu irmão Manuel, que casou com a cunhada e tomou para si o estabelecimento
comercial. Mas tarde, Manuel passou o estabelecimento ao seu irmão
Luis Ameixeiro e voltou a Portugal, com sua amada Isaura.
O
estabelecimento dos Ameixeiros crescia e atendia à crescente população
da vila. Era uma daquelas casas comerciais típicas do interior,
que vendia secos e molhados e fornecia refeições. Naquela época,
tinha duas salas de refeições separadas, com preços e serviços
diferenciados, as salas "de primeira" e "de segunda"
-- exatamente como os vagões dos trens.
Logo
no começo do século, chegou aqui Geraldo Nogueira, vindo de uma
vila galega chamada Goyan, na província de Pontevedra, bem perto
da Vigo de Jesus Rodrigues. Logo arranjou um emprego de foguista
na inglesa, ou, oficialmente, São Paulo Railway - ou SPR, como
tantos diziam.
Pois
então, como eu disse, Jesus Rodriges trouxe da Espanha duas filhas.
Geraldo, o foguista, encantou-se com Encarnação, a mais velha.
Luis, o padeiro, perdeu-se de amores por Carmen, a mais nova.
Geraldo
e Encarnação, Luis e Carmen
Ambos
fizeram bons casamentos.
Luis,
o negociante, casou-se com Carmen, mulher corajosa, empreendera
e terrível, ainda hoje lembrada com certo temor por seus netos.
Geraldo, o maquinista, casou-se com Encarnação, mulher devota
e econômica, que jamais desperdiçou um tostão na vida. Cada um
casou com a mulher de que realmente precisava.
A
vida no Alto da Serra
Era
uma vida muito simples. Havia dois clubes a Lyra e o Serrano,
que depois de fundiram. Esporadicamente, uma sessão de cinema.
Um que outro casamento.
Andava-se
geralmente descalço, não sei como, porque chovia o tempo todo
e aquelas pedras molhadas deveriam ser um suplício para os pés.
O
centro de tudo era a Estação. Grandioso prédio em estilo inglês,
destruído por um incêndio. A estrada pagava seus empregados em
libras esterlinas, que ele trocavam por milréis quando indispensável
e guardavam embaixo do colchão quanto podiam.
Havia
até um bordel, lá para os lados do morro e até uma cadeia, para
a qual aparentemente nunca houve grande uso.
Hortaliças,
colhia-se no fundo do quintal. Bananas, a gente encomendava para
alguém que pilotasse um locobreque (uma das máquinas que levavam
os três pelo funicular). Na serra havia muita bananeira silvestre
e era só cortar. Depois, a banana era guardada em baixo da cama,
onde maturava devagar.
As
casas dos trabalhadores eram de madeira. Geralmente muito bem
cuidadas. Lembro ainda dos meus últimos primos em Paranapiacaba
que passavam as horas de folga fazendo pequenos serviços de conservação.
Muito era feito com refugos da estrada. Pedaços de trilho e de
cabo de funicular eram matéria-prima para tudo. Eram todos, como
se dizia na época, muito jeitosos.
As
mulheres, sem a menor possibilidade de trabalho remunerado naquele
lugar e naquela época, além de cuidar de casa e dos muitos filhos,
costuravam, bordavam, criavam galinhas e havia um animado sistema
de trocas entre elas. Vivia-se sem luxo, mas com abastança. Ninguém
era rico, mas também não havia desemprego.
O
poder da Estrada
A
Estrada mandava, essa era a regra. Embora fizesse parte do município
de Santo André, como até hoje faz, a vila era domínio da Estrada.
As casas dos trabalhadores eram da Estrada, a padaria do meu avô
era dele, mas a estrada impunha restrições à venda do negócio.
Coisas assim. A Estrada tinha uma cooperativa, onde se comprava
barato o mais necessário. A Estrada fornecia lenha, a estrada
dava passes. A Estrada desmontava as paredes divisórias das casas
quando havia algum casamento ou outra festança, transformando
cada casa em um salão de festas. Depois, remontava tudo. A Estada
tinha uma Caixa de Aposentadoria bem antes de o governo federal
pensar nisso. A Estrada era a segurança. A Estrada era tudo.
A
gripe espanhola e o estrangeiro misterioso
Quando
a gripe espanhola assolou a vila, depois da primeira guerra mundial,
minha avó Carmen ia cuidar dos "solteiros" - a enorme
quantidade de espanhóis e portugueses que chegava aqui sem família
e ia dormir em vagões adaptados para servir de alojamento.
Homens
duros, que resistiram a muita coisa, mas não à terrível epidemia.
Todo dia ia lá ela junto com um dos empregados, um sujeito misterioso.
Certamente era estrangeiro, porque falava um português arrevesado.
Entretanto, ninguém sabe de onde vinha, nem que nome tinha. Alguém
lhe deu o apelido de Jacobino. Não se sabe por quê. O nome pegou
e todos os conheciam por Jacobino. Deus sabe o que foi dele.
O
Dr. Magalhães, médico que aparecia por lá de vez em quando, ensinou
Carmen a dar injeções, que ela ministrava a torto e a direito
pela vila. Não teve coragem de dar uma em seu filho Renato e consta
que, por isso, a criança morreu. Entretanto, os outros quatro
filhos, Luis, Diva (que todos chamam de Laura), Irene, e Reynaldo
sobreviveram, casaram e constituíram suas próprias famílias.

Um
maquinista bem-sucedido
Minha
avó Encarnação e seu marido Geraldo, por seu lado, tiveram três
filhos: Amadeu, Riqueredo e Luísa. Quando meu avô Geraldo foi
registrar meu pai, o tabelião entendeu o Recaredo, forma galega
de Ricardo, como Riqueredo e assim ficou meu pai registrado. Para
minha avó, sempre foi o Recaredo. Todos, até hoje, o conhecem
como Nogueira.
Ganhava-se
bem na Estrada, naquela época e meu avô Geraldo, já em 1914, decidiu
tirar umas férias e ir para a Espanha. Foi, com mulher e filhos,
mas logo teve de voltar, por medo de ficar preso na Europa pela
guerra. Aposentou-se muito cedo, por doença, lá por 1925. Mas,
mesmo assim, ao falecer, em 1948 deixou de herança quatro casas
em São Paulo, em parte devido ao apoio da esposa que sabia cuidar
do que o marido ganhava.
Um
menino na Revolução de 1924
O
grupo escolar de Paranapiacaba, por algum motivo que me escapa,
não tinha o quarto ano primário. Riqueredo Nogueira, meu pai,
foi até o terceiro ano primário e ficou por lá mesmo, dois anos
sem estudar, até que fosse julgado suficientemente adulto para
vir a São Paulo sozinho. Isso foi em 1924 e ele foi matriculado
no então Grupo Escolar do Brás, hoje Romão Puiggari, na avenida
Rangel Pestana. Vinha de trem todo dia, com passe da Estrada.
Um
dia, entra o diretor na sala de aula e dispensa todos. Tinha começado
a revolução e as aulas estavam suspensas. Meu pai e três colegas
foram até a estação e descobriram que não havia trem. Decidiram
voltar a pé. Da estação, alguém mandou telegrama ao Alto da Serra
e um grupo de gente veio, também pela linha, para receber os moleques.
Encontraram-se perto de Rio Grande da Serra.
Os
Nogueira e os Ameixeiro
Todos
se conheciam em Paranapiacaba, evidentemente. Mas nem todos eram
amigos. Há umas histórias encrencadas, umas inimizades, uns mal-quereres.
Mas os Nogueira e os Ameixeiro eram amigos e meu pai fazia pequenas
entregas para o tio Luís, que o remunerava com doces. Também,
de vez em quando, sentado numa mesa da padaria, bar, pensão, hotel
e centro social que pertencia a meu avô Luis, meu pai servia de
escrevente para os trabalhadores analfabetos que queriam mandar
cartas à família ou lia as cartas que vinham de fora.
Aos
poucos, aos poucos foi se tomando de amores pela prima Irene,
mas essa história ainda tem que esperar um pouco.
O
reencontro dos Ameixeiros em Portugal
Mas
meu avô Luis, o negociante, ganhou muito dinheiro e, em 1926,
meteu-se na cabeça que devia vender o estabelecimento e ir passear
em Portugal. Assim fez e lá passou dois anos e meio, indo e vindo
de um lado para o outro. Fazia par com seu irmão Manoel, seu antecessor
na Padaria em Paranapiacaba, que, com o dinheiro ganho no Brasil,
tinha comprado uma bela quinta em Figueira da Foz.
Luis
retornou ao Brasil em 1929, mas não voltou a Paranapiacaba. Achou
melhor ficar em Santo André, onde abriu um bar perto da estação.
Depois, foi para São Paulo. Mas nunca mais voltou a Portugal.
Dinheiro como tinha ganho na vila de Paranapiacaba, nunca mais.
Os
Nogueira em São Paulo
Meu
avô Geraldo, ao aposentar-se, veio para São Paulo, onde o clima
era mais favorável.
Mas
seu coração não estava nem na Espanha nem em São Paulo, estava
no Alto da Serra. Sempre manifestou o desejo de ser enterrado
no Alto da Serra. Quando morreu, fizeram sua vontade. O vagão
funerário, que hoje ainda se vê em Paranapiacaba, veio buscá-lo
para a última viagem. Pegou fogo no meio do caminho, mas o incêndio
foi apagado em tempo.
Meu
tio Amadeu, sempre inquieto, saltitava de São Paulo para Santo
André, onde trabalhou na prefeitura, fundou a biblioteca municipal,
pesquisou a história local e publicou inúmeros trabalhos, lamentavelmente
perdidos pelos jornais da época. Em 1932, pendurou-se na estátua
do Flacquer que havia no lugar que hoje ainda se chama Praça da
Estátua, fez um discurso inflamado e organizou um batalhão que
foi para o fronte, com mais patriotismo do que treinamento. Foi
preso sem dar um tiro e, quando voltou para a casa, nem a mãe
o reconheceu. Sempre um apaixonado por história, por Santo André
e por Paranapiacaba.
O
Casamento
Meu
pai, sempre mais quieto e reservado, estudou na Escola Profissional
Getúlio Vargas e foi trabalhar na Companhia de Gás de São Paulo,
depois na Rhodia em Santo André. Nas horas vagas, rondava o bar
do tio, nos Campos Elíseos e em 4 de outubro de 1941, casou-se
com minha mãe. Em 1942, nasci eu.
O
Fim
Aos
poucos, foram todos saindo do Alto da Serra. Primeiro, os que
não queriam a vida da Estrada. Depois, os que a Estrada não podia
absorver. Na década de 1950, ainda havia um bocado de gente lá.
O Leandro, filho da tia Manuela, aquela que foi mordida por cobra,
casado com uma outra Irene, tinha uma pensão. O Deneme, casado
com a Carminha, foi dos últimos a trabalhar na Estada.
Quando
meu avô Luis faleceu, lá por 1960, para falar com Paranapiacaba,
telefonava-se para a Estação da Luz e pedia-se que alguém fizesse
uma ligação para lá. Fui encarregado dessa tarefa. Quando me atenderam,
pedi para falar o chefe da estação e disse que tinha falecido
Luis Ameixeiro. O homem, cujo nome nunca soube, me deu os pêsames
e disse que ia avisar a todos. Cumpriu sua palavra.
Agora,
não teria mais a quem avisar.
Esta
história é verdadeira na extensão em que minha capacidade e a
memória dos meus pais e de minha tia Laura o permitem. Se você
for da família de Jesus Rodrigues Varela ou tiver como adicionar
ou corrigir alguma coisa, por favor, mande uma mensagem para mim.
danilo.tradutor@zaz.com.br
|
|