Paranapiacaba: um cenário perceptivo, uma vocação turística, uma alternativa possível

Por que, enquanto o médico (que tem o mister da cura) decide se trata ou não do doente, permitir que o pobre paciente fique, dias a fio, sem assistência; de tal sorte que quando a decisão vier, o mesmo já estará falecido. Toda e qualquer providência, neste momento, será em vão e o curandeiro, um inútil.

Vila de Paranapiacaba possui peculiaridades e características de uma vocação própria que a torna motivo de estudos e poesia desenvolvidos por técnicos, escritores, fotógrafos e cineastas. O seu magnífico cenário perceptivo, já em 1887, despertava interesse de Julio Ribeiro que a retratou, em seu famosos romance "A carne", por passagem neste lugarejo. Com a chegada do cinema, no entanto, a bucólica povoação, sempre envolta numa densa neblina, tornou-se locação preferida pelos cineastas e publicitários nacionais.

Foi José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", que descobriu Paranapiacaba como local ideal, ambientando o Castelinho para seus filmes. João Batista de Andrade, inspirado num romance de Geraldo Ferraz, fez com que Paranapiacaba se transformasse na irriquieta cidade de Cordilheira, com suas casas de madeira e o trabalho ferroviário ao dirigir Doramundo, estrelado por Antonio Fagundes, Irene Ravache e Rolando Boldrin. Pelé também contracenou em "A Marcha" junto às casas de madeira da Vila. Da mesma forma, o cienasta José de Anchieta rodou seu "Parada 88", um filme explorando tema ecológico e estrelado por Regina Duarte. Um filme de curta metraga, "Alerta Final", também foi filmado no povoado. As cenas de desembarque dos imigrantes japoneses em "Gaijin", de Tizuka Yamazaki, também foram rodadas na antiga estação.

Muitos filmes para publicidade também se utilizaram da cidade, dos cenários naturais que ela oferece como a antiga estação e as casas de madeira da Martin Smith. É o exemplo de uma campanha publicitária da Volkswagen que aproveitou da estação para aumentar a comercialização de seus veículos. Até uma novela, "Um homem muito especial", foi inteiramente gravada na cidade.

Recentemente, quando dos Rolling Stones em sua turnê pelo Brasil, ao pretenderem gravar um clipe em Paranapiacaba, ela tomou emprestado, dos não menos famosos artistas, o brilho, pois o palco com o cenário serrano, mesmo sem eles, esteve preparado para o dia pretensamente marcado para a gravação.

Naturalmente, Paranapiacaba não só oferece o seu cenário. Possui, em sua envoltória, meio ambiente e vegetação exuberante formando uma imensa reserva biológica. Um clima agradabilíssimo como também uma boa água colhida da serra, são requisitos que a torna rota de excursionistas e escoteiros, além de centro de atenções de estudantes e colegiais, de todos os níveis, à procura de um pouco de história e que acabam por deparar com uma verdadeira aula de história da técnica e da engenharia nas obras de arte da construção ferroviária mostradas in loco na Vila e na Serra do Mar e também de uma mostra de exemplos significativos da arquitetura e do sistema construtivo em madeira da Vila Martin Smith e sua implantação exemplar. Oferece, assim, um roteirode visitação interessante pelo seu aspecto pedagógico, cultural e recreativo. Para completar, o transporte da Região Metropolitana de São paulo até a localidade é facilitada pela ferrovia, pois a Vila de Paranapiacaba ainda é a última estação da linha de subúrbio de São Paulo.

Atualmente, este patrimônio cultural imenso, constituído pelos equipamentos ferroviários, funiculares, vila operária e seu entorno próximo, formando o Sistema Paranapiacaba, vem sofrendo sérias e contínuas ameaças de abandono, que instituídas, descaracterizam irrevesivelmente todo este complexo. Fadada a ser apenas uma cidade dormitório, as alternativas de desenvolvimento da Vila precisam ser reestabelecidas. Senão, vejamos: Local turístico? Reserva ecossistêmica e biológica da Serra do Mar? Área de proteção dos mananciais? Pólo para prestação de serviços e atividades ligadas a ecologia, ao turismo e ao meio ambiente? Qual é a vocação para a população local? E, evidentemente, quais rumos tomar para resgatar, reavivar, reativar, revitalizar seus edifícios, equipamentos, infra-estrutura, tecnologia e sistema construtivo? À falta de investimentos públicos, restam parcerias, cooperações e colaborações de empresários e entidades privadas e organizações não governamentais. Em troca, oferecer-se-ia incentivos, publicidade e, com certeza, um lugar na história deste magnífico patrimônio à espera de urgente adoção.

Portanto, em respeito, a, pelo menos, seu memorável passado, necessita-se com urgência de medidas que impeçam a deterioração de seu espaço. A gravidade da situação exige uma postura da sociedade como um todo, pois tomando a Vila de Paranapiacaba como exemplo, o momento exige seriedade de todos os órgãos que tem o dever de zelar pelas condições de preservação dos nossos bens culturais. Não se pode mais adiar a implementação de propostas de revitalização que levem em conta a destinação social, maximizando o significado do patrimônio cultural: "ferrovia - arquitetura - meio ambiente" e que abra frente, por exemplo, ao potencial turístico, uma vocação natural da localidade. Com certeza, por trás de cada edificação em pinho-de-riga e de cada plano inclinado da ferrovia batalha-se, incessantemente, pela preservação deste patrimônio e pela liberdade de se criar e discutir conjuntamente os caminhos necessários, razão de ser do próprio homem resgatando seu passado autofágico, buscando seus espaço presente e suas necessidades vitais futuras para o enriquecimento das relações sociais e humanas.

 

 

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